A exposição Cromomuseu: Pós-Pictorialismo no Contexto Museológico, aconteceu de 06 de dezembro de 2012 a 31 de março de 2013, em Porto Alegre/RS, ocupando todas as oito galerias do Museu de Arte do Rio Grande do Sul. A exposição mostrou a produção artística de diferentes linguagens, abrangendo um período que vai desde meados do século XIX até a contemporaneidade, no total de 223 obras de 147 artistas brasileiros e estrangeiros do acervo do MARGS. A curadoria da exposição ficou à cargo do diretor do MARGS, Gaudêncio Fidelis.

cromomuseu

Duas obras, da série BIOSHOT de Flavya Mutran (2010) que integram o acervo do MARGS foram incluídas na Mostra, na sala “A ausência”. As Imagens da série BIOSHOT, integram a pesquisa Pretérito Imperfeito de Territórios Móveis, e tratam da massificação de autorretratos como formas de construção de autonarrativas contemporâneas, graças ao uso de aplicativos gratuitos disponíveis na internet.

fotoweb

Acima, detalhe das obras de Flavya Mutran da série BIOSHOT (2009-2010, Porto Alegre/RS) expostas em uma das salas negras, do setro CROMONOMIA: A ausência. Para o curador da Mostra, Gaudência Fidelis, “A restrição à cor representa uma perda material; porém, para a experiência estética, ela significa um acréscimo de grande significado. Obras monocromáticas significaram uma radicalização do espaço pictórico desde o seu advento no início dos anos de 1950. Para esse segmento, foram escolhidas predominantemente obras monocromáticas nas cores preto e branco, que constituem o estágio mais radical da experiência monocromática na obra de arte. A economia política do monocromo presumia a supressão da variedade colorística com o objetivo de obter um ganho de impacto pela concentração máxima da intensidade da cor. Contudo, essas não são obras monocromáticas puras, mas híbridas, já que a arte brasileira raramente produziu obras monocromáticas radicais, mas quase sempre com a contaminação de outra cor, mesmo que algumas vezes esta fosse praticamente imperceptível. Cromonomia introduz uma série de questões relativas a uma economia do monocromo e à sua emblemática existência no campo da arte.”

Abaixo, transcrevo parte do texto distribuído no release da Mostra, em que o curador fala sobre o conceito da exposição:

‘Centenas de cores e uma galeria invertida

Cromomuseu é formada por uma plataforma museográfica composta por paredes pintadas com centenas de cores sobre as quais serão expostas as obras e uma “galeria invertida”, construída dentro de uma das galerias do MARGS, onde as pinturas serão mostradas com seu verso voltado para o público. Cromomuseu declara temporariamente o fim do chamado cubo branco — o espaço de exposições privilegiado pela modernidade para exibição de obras. Trata-se de um espaço asséptico, branco, inodoro e sem interferência de luz externa, cujo objetivo é isolar a produção artística do mundo real, possibilitando que tudo o que seja exibido naquele espaço torne-se, por essa razão, consagrado como arte. O cubo branco foi assim concebido como uma plataforma ideológica capaz de canonizar as obras da modernidade.

Paraa exposição Cromomuseu, as paredes das galerias foram pintadas com centenas de cores, sobre as quais foram exibidas as obras. Esta não é, portanto, uma exposição prioritariamente sobre a cor como questionamento posto pelas obras, mas sobre o emprego da cor no espaço museológico e como o aparato museológico interfere em nossa percepção. Mais do que isso, trata-se de uma exposição que problematiza a percepção comoum dos mais complexos fenômenos da atualidade. De como ela é constantemente alterada pelos mecanismos de exibição museográfica, pela lógica de exibição de obras adotada por cada um dos projetos curatoriais e pelo modo como cada um desses objetos artísticos é colocado em funcionamento.

Cromomuseu promove a extinção do cubo branco de exposições e impregna as paredes do museu com o universo social e todas as suas perturbações: sinais, logos, cores, sensações, etc. A obra agora não está mais protegida pelo imaculado espaço branco, mas posta no mundo, despregada do universo da arte e solta no universo da cultura. O primeiro pode ser lido como o campo da arte e o segundo como o campo social da cultura.

Ao invés do cubo branco, o cromocubo

O Cromocubo constitui-se, porém ,como uma plataforma crítica, ao contrário das ingênuas e decorativas investidas da cor nas paredes do museu. Nesse sentido, o MARGS avança para um universo impregnado pelo conceito de cultura total e inclusiva, utilizando desta vez o mecanismo da cor. Assim, ao incorporar uma diversificada gama de possibilidades colorísticas, o MARGS abre um terreno fértil para o universo de programas futuros que a instituição pretende privilegiar, por meio de exposições que incorporem uma maior diversidade de proposições artísticas, capazes de representar a qualidade e a excelência da arte brasileira e estrangeira presente em seu acervo. O cubo branco é exclusionário e o cromocubo mais inclusivo. O primeiro privilegia as obras primas, o segundo a diversidade de estilos.’

O MARGS irá inaugurar dia 17 de maio às 19 horas sua primeira grande exposição do ano com obras de 60 artistas nascidos entre 1860 e 1982. Explorando a polissemia da palavra Alien, a exposição abordará diversas estratégias curatoriais para discutir as diversas facetas da produção artística, como a formação do cânone, as abordagens politicas do Outro, memória e cronologia e a inovação artística recente.

Dividida em três grandes segmentos, a exposição possui uma abordagem curatorial híbrida oriunda de um método não-cronológico e não hierárquico de montagem de exposições utilizado em exposições anteriores do MARGS como Labirintos da Iconografia e O Museu Sensível. As obras da exposição são em sua maioria provenientes do acervo do MARGS completadas por um segmento de obras de artista contemporâneos. Dando segmento a sua politica de privilegiar o acervo em suas exposições o Museu de Arte do Rio Grande do Sul realiza esta que pretende ser a maior exposição que a instituição já realizou dedicada a discutir os princípios de formação canônica, assim percorrendo as mais diversas abordagens artistas de meados do século 19 até a produção amis recente, tida como aquela que se mostra não só inovadora, mas radical em suas diversas abordagens do objeto artístico.

Com vem sendo feito em exposições anteriores do museu a organização curatorial da exposição foi realizada na forma de justaposições e paralelos entre obras de períodos, escolas e gêneros diferenciados, onde uma obra estará sempre ligada a outra e/ou conjunto de obras. No estabelecimento destas relações foi colocado uma ênfase em questões conceituais, estéticas, históricas, técnicas e ainda outras abordagens como gênero, classe e abordagens que se mostram frutíferas para potencializar e expandir o significado de cada uma das obras presentes na exposição. A escolha das obras foi realizada como forma de quebrar pressupostos canônicos que fundamentam as hierarquias entre obras, e ao fazê-lo revelar os mecanismos que as definem como tendo maior ou menor importância em uma escala de valores estéticos, culturais e históricos..

Dando continuidade ao programa de exposições do MARGS instituído nesta gestão, esta é igualmente uma exposição concentrada em obras e não com ênfase em individualidades, salientando a importância de cada uma delas em um campo institucional de produção de conhecimento da produção artística que o museu quer privilegiar. As escolhas das obras foram realizadas para privilegiar uma disposição nãocronológica, avançando e recuando dentro do arco histórico definido pela exposição, buscando privilegiar a convivência entre obras no espaço de exposição produzindo mecanismos de amostragem que venham a enfatizar o potencial artístico de cada uma destas obras para além de sua proposição estética inicial. Assim a exposição busca instituir novas relações entre obras como entidades cujo potencial artístico seja capaz de se relacionar com obras de períodos e gêneros diversos para muito além da sua especificidade cultural e artística.

A exposição traz um considerável número de obras inéditas do acervo do MARGS que ainda não foram sido mostradas pelo museu, assim como obras canônicas da coleção, conhecidas do grande público, e ainda obras de outras coleções e artistas contemporâneos.

‘Alien: Manifestações do Disforme‘ está divida em quatro segmentos diversos, definidos através de proposições conceituais que articulam o projeto curatorial da seguinte forma:

1)      Imagens que mundo esqueceu

Este segmento da exposição é composto por obras que nunca foram trazidas adequadamente à visibilidade pública. Através delas, vemos que a dimensão artística e estética pode ser ampliada em diversas direções, principalmente quando abandonamos a extensa lista de convenções que norteiam a constituição de objetos artísticos e suas posteriores escolhas. Encontram-se neste segmento obras que não ainda tenham despertado significativa importância de uma perspectiva artística ou acadêmica, mas que se constituem como objetos criativos e singulares no território da arte.

2)      Desvios da norma

Este segmento abrange obras que, por sua constituição estética, situam-se fora dos parâmetros canônicos vigentes da produção consagrada pela crítica e pela historiografia. Se forem consideradas as convenções artísticas, as obras neste segmento demonstram um considerável desconforto em situar-se no âmbito das regulamentações do cânone estabelecido. Por isso mesmo, sua constituição é diametralmente oposta à produtividade discursiva da metodologia artística que pressupõe a regra como recurso da assinatura e da credibilidade formal.

3)      Um outro entre tantos

O centro de abordagens políticas de gênero, classe e identidade é o que caracteriza o campo de articulação conceitual desse segmento da exposição. Dentro dessa ótica, a evidência de uma política das coleções e sua formação é introduzida como elemento fundamental da constituição de um acervo, assinalando a visão artística como não sendo destituída de uma predisposição de representação do aspecto social e político. Nesse segmento são contempladas obras que traduzem a condição do Outro como estrangeiro, visto muitas vezes como diferente e dissimilar à nossa própria constituição; disforme, portanto, diante do olhar muitas vezes viciado do preconceito.

4)      Supernova

Composto pela produção de artistas da geração mais recente, este segmento introduz o novo para além da conhecida vontade das vanguardas históricas, possibilitando a apresentação de obras que ainda não estão institucionalizadas, mas que apresentam vocação para a radicalização dos procedimentos artísticos. Em sua dimensão propositiva, tais obras apresentam um campo de possibilidades que articula a vontade de constituição do objeto em contraposição à racionalidade das regras normativas da arte.

Artistas (8) do segmento Supernova:

Alessandro Amorin, Camila Schenkel, Dirnei Prates, Flavya Mutran, Guilherme Dable, Leandro Machado, Mayana Redin e Marcos Sari.

Na abertura da exposição ocorrerá a performance Tacet, de Guilherme Dable, com a participação dos músicos Diego Silveira, Antonio “Panda” Gianfratti e Thomas Rohrer. Nela, os músicos “operam” instrumentos preparados com papéis que além de alterar a sonoridade dos instrumentos, deixam registrados suas ações performáticas graficamente, gerando assim uma série de desenhos, ao mesmo tempo que executam a música.

A realização de uma exposição que invoque uma perspectiva alienígena para a constituição das obras está essencialmente fundamentada em uma perspectiva de articulação do estranho, daquilo que não encontra lugar imediato dentro dos parâmetros de canonização instituídos e colocados em efeito pelo processo de institucionalização.

 Alien: Manifestações do Disforme apresenta a obra dos seguintes artistas:

(lista total, obras do acervo MARGS e convidados/Supernova)

Adma Corá – (Porto Alegre, 1958).

Alberto Guignard – (Nova Friburgo/RJ, 1896 – Belo Horizonte/MG, 1962).

Alessandro Amorin – (Caxias do Sul/RS,1970).

André Petry – (Porto Alegre, 1958).

Arlete Sauer – (Passo Fundo/RS, 1923).

Arthur Piza – (São Paulo/SP, 1928).

Astrid Linsenmayer – (Porto Alegre/RS, 1936).

Bez Batti – (Venâncio Aires/RS, 1940).

Britto Velho – (Porto Alegre, 1946).

Camila Schenkel – (Porto Alegre/RS, 1982).

Cláudio Carriconde – (Arroio Grande/RS, 1934 – Santa Maria/RS, 1981).

Danúbio Gonçalves – (Bagé/RS, 1925).

Dirnei Prates – (Porto Alegre/RS, 1965).

Eleonora Fabre – (Sobradinho/RS, 195).

Elim Dutra – (Bom Jesus/RS, 1942).

Fernando Corona – (Santander/Espanha, 1895 – Porto Alegre/RS 1979).

Flavya Mutran – (Maraba/Pará, 1968).

Frank Shaeffer – (Belo Horizonte/MG, 1917 – Rio de Janeiro, 2008)

Guilherme Dable – (Porto Alegre/RS, 1976).

Guma – (Tapes/RS, 1924 – Porto Alegre/RS, 2008).

Gustavo Nakle – (Montevidéo/Uruguai 1951)

Hércules Barsotti – (São Paulo/SP, 1914-2010).

Iberê Camargo – (Restinga Seca/RS, 1914 – Porto Alegre/RS, 1994)

Ilsa Monteiro – (Porto Alegre, 1925).

Izrael Szajnbrum – (Urzedow/Polônia, 1924).

José de Souza Pinto – (Açores/Portugal, 1856 – Porto/Portugal, 1939)

Jader Siqueira – (Pelotas/RS, 1928).

João Gonçalves – (Uruguaiana/RS, 1950).

Kenji Fukuda – (Indiana/SP, 1943)

Leandro Machado – (Porto Alegre/RS, 1970).

Luiz Gonzaga – (Júlio de Castilhos/RS, 1940).

Lúcia Ramenzoni – (São Paulo/SP, 1943).

Luigi Napoleone Grady – (Santa Cristina/ Itália, 1860 – Brusimpiano/Itália, 1949).

Luiza Albuquerque – (Porto Alegre, 1927).

Luiz Alcione Moreira – (Porto Alegre, 1945).

Luiz Barth – (Taquara/RS, 1941).

Luiz Carlos Felizardo – (Porto Alegre, 1949).

Lyria Palombini – (Itanhadu/ MG, 1939).

Marcos Sari – (Porto Alegre/RS, 1972).

Mário Röhnelt – (Pelotas,1950)

Mayana Redin – (Campinas, 1984).

Milton Kurtz – (Santa Maria/RS, 1951 – 1996).

Moacir Chotguis – (Santana do Livramento/RS, 1954).

Noelia de Paula – (Salvador/BA, 1937).

Norberto Nicola – (São Paulo/SP, 1931-2007).

Paulo Aguinsky – (São Borja/RS, 1942).

Paulo Osir – (São Paulo/SP, 1890 – 1959).

Paulo Porcella – (Passo Fundo/RS, 1936).

Renato Hauser – (Porto Alegre/RS, 1953)

Roberto Cidade – (Caçapava do Sul/RS, 1939-Torres/RS, 2011)

Rodolfo Garcia – (Montenegro/RS, 1931).

Saint Clair Cemin – (Cruz Alta/RS, 1951).

Tânia Resmini – (Santana do Livramento, 1951).

Tomie Ohtake – (Japão, 1913).

Vera Rausch – (Porto Alegre, 1943).

Wilbur Olmedo – (Cachoeira do Sul/RS, 1920 – Porto Alegre/RS, 1998).

Wilma Villaverde – (Buenos Aires/Argentina, 1942).

Wilson Cavalcante – (Pelotas, 1950).

Wilson Alves – (Porto Alegre, 1948).

Yutaka Toyota – (Tendo/Japão, 1931).

A Galeria Virgilio   inaugura no dia 08 de maio, às 20 horas, a mostra de fotografias O Olhar que vem da Terra, com curadoria de Izabel Pinheiro e texto de apresentação do arquiteto Paulo Chaves. A coletiva 47 de fotos e 2 vídeos exibe a recente produção de 15 artistas de origem paraense ao público paulistano durante a realização da SP Arte, evidenciando a diversidade de linguagens de diferentes gerações de artistas selecionados pela galerista paraense.

Participam da coletiva: Alberto Bitar (selecionado para a 30a Bienal de São Paulo), Alexandre Sequeira, Armando Queiroz, Bruno Cecim, Claudia Leão, Elza Lima, Mariano Klautau, Flavya Mutran, Fatinha Silva, Guy Veloso (participou da 29a Bienal de São Paulo), Octávio Cardoso, Paulo Jares, Walda Marques, Pedro Cunha e Paula Sampaio.

Balizada desde o início dos anos 1980 em oficinas criativas como o Fotoficina, Fotoativa e, principalmente, nas realizações do Fotovaral, a partir de 1983, algumas gerações de artistas paraenses passaram a fazer leituras críticas acerca do fazer fotográfico, alentando uma produção singular que teve continuidade na década seguinte, impulsionada pela Oficina de Fotografia Fotoativa. Para o pesquisador e fotógrafo Patrick Pardini, o legado técnico, metodológico e pedagógico dessas oficinas  se faz presente em grande parte da atual produção fotográfica paraense representada nesta mostra coletiva.

Para Paulo Chaves, “a fotografia paraense se afirma na diversidade de conceitos e atitudes diante da vida. A rigor, apesar das diferenças, pulsa uma factível identidade amazônica, com suas misérias e esperanças. Quem sabe um único olhar num caleidoscópio de infinitas combinações, ou, talvez, múltiplos olhares de uma essência que se plasma na energia do nosso imaginário”.

Serviço:

Evento:  Olhar que vem da terra, exposição coletiva de foto e vídeo

Abertura: 08 de maio, terça-feira, a partir das 20 horas

Período expositivo: de 09 de maio a 05 de junho de 2012

Local: Galeria Virgilio

Endereço: Rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426

CEP 05415-020, Pinheiros, São Paulo – SP

Telefone: (55 11) 2373 2999

Horários: de segunda a sexta, das 10 às 19h; e sábados, das 10 às 17h

Entrada franca e livre

www.galeriavirgilio.com.br

Informações para a imprensa:

Décio Hernandez Di Giorgi

www.adelantecultural.com.br

dgiorgi@uol.com.br

Tel.: (55 11) 8255 3338 (cel.)

Publicado: 02/04/2012 em Fotografia

 

Nas imagens de Flavya Mutran, o real é apenas o ponto de partida. O que se revela diante do espectador passa longe do retrato como registro. Sua produção envereda pelos vultos, pelo pictórico, pelo inexato. A fotografia se torna ficção, impalpável, objeto-quase. “Meu trabalho não tem um viés documental. Dos lugares e personagens que estarão em exibição, o que se poderá ver são versões de como a nossa vida é cheia de véus que escondem desejos, mentiras que encobrem rostos e apagam sentimentos, cores que distorcem a luz diária. Tudo descaradamente inventando, mas genuinamente construído através da linguagem fotográfica tradicional”, diz a artista sobre o teor da mostra “File 00”, que abre hoje na Kamara Kó Galeria.

A exposição individual faz um apanhado do trabalho experimental desenvolvido por Mutran na última década. São cerca de vinte obras compiladas de três séries, entre fotografias premiadas e inéditas. “São imagens de arquivo, pensadas e realizadas em momentos distintos, mas que têm em comum uma busca inquieta de explorar a fotografia pelo caminho da subjetividade, da imprecisão”, explica Mutran. Outro fato em comum nas séries de “File 00” é uso de sobreposição de imagens e do diálogo entre a técnica tradicional da foto em filme e a imagem digital.

“Os trabalhos seguem sempre em busca de objetos infotografáveis, na constante experimentação de materiais que escapam à lógica da fotografia direta e sempre encontrando imagens que estão em queda, vindas talvez de um mundo mais solar das superfícies e horizontes rumo a um universo de sombras, lugar de dúvidas, lembranças, desejo”, diz Mariano Klautau Filho, fotógrafo e pesquisador, que assina o texto de apresentação da mostra, que conta com os benefícios da lei de incentivo Tó Teixeira e Guilherme Parente, patrocínio da BLB Eletrônica e apoio da Grand Cru Belém.

MEMÓRIA

Produzida entre 2000 e 2004, a série “Quase Memória” explora o universo íntimo e afetivo da artista, e alcança o resultado de obra aberta. O projeto marca o início do trabalho de Mutran com as manipulações de imagens preexistentes.

As obras misturam cromos 35mm do seu acervo de família e sobras de trabalhos profissionais. Uma ponte entre tempos. “São justaposições de fotos que embaralham épocas e olhares diferentes, expondo a fragilidade da relação entre a matéria e a memória, seja física – corpo, papel, negativo e cópia -, seja virtual – lembranças, sensações, esquecimentos”, explica a artista.A primeira faísca do projeto surgiu ainda nos anos 90, quando, trabalhando como laboratorista, chegou às mãos de Flavya a missão de resgatar fotos de família atingidas pela enchente periódica que marca sua cidade natal, Marabá.

Dentro da caixa de sapatos onde sua mãe guardara os retratos, Flavya percebeu sua matéria-prima. “Ao invés de restaurá-las, eu as gastei ainda mais, e então ficou muito nítido o rasgo do tempo naquelas imagens, que foram feitas numa tentativa de registrar momentos, de fixar lembranças, de torná-las contadoras da nossa história de família. Mas quando a fotografia se desfaz e só deixa rastros, o que resta então da nossa identidade, da nossa lembrança? Uma porta aberta para ficção”, diz.

O resultado são imagens repletas de nuances, de contornos de paisagens, objetos e pessoas. Apenas intenções. “Estamos na superfície da paisagem, em horizonte ainda decifrável, mas de baixas luzes, memórias apagadas, resquícios de um território ainda possível”, pontua Mariano. Entre vários prêmios, três obras dessa série integram a conceituada coleção Pirelli/MASP desde 2004.

IDENTIDADE

Em “There´s no place like 127.0.0.1”, retratos obscuros, ainda incapazes de dar conta das identidades definidas. Flavya explora as imagens privadas de anônimos que se tornam públicas nas redes virtuais. A artista apropria-se destes rostos e corpos em fotoblogs, os manipula digitalmente, projeta-os sobre outras superfícies e compõe um conjunto de imagens sedutoras.

O título faz referência direta ao número do IP, endereço de um computador, o lar dos atores que constroem o mundo virtual em constante movimento. “O resultado é de uma potência erótica estonteante. Talvez seja a grande identidade anônima que abriga em certas medidas a carga sexual coletiva”, diz Mariano. Um novo recorte mostrará trabalhos que não foram exibidos na mostra “Pretérito Imperfeito de Territórios Móveis”, que esteve em cartaz no Espaço Cultural do Banco da Amazônia em 2011. Mais recentes, as fotografias da série “Mapas de Rorschach” também integram ‘File 00’.
TEXTO: Gil Soster (http://ee.diariodopara.com.br/) 09 de março de 2012, caderno VOCÊ, P.05, Jornal O Diário do Pará.

Flavya Mutran e Makikó Akao editando a Mostra FILE 00. Fotos gentilmente cedidas por: Bruno Carachesti.

A fotografia pictórica que versa sobre a lembrança e a identidade. Bem além do retrato, o olhar dispensa a precisão, e opta por formas abstratas, quase oníricas. A nova individual de Flavya Mutran, intitulada FILE 00, reúne trabalhos fotográficos inéditos e premiados produzidas na última década. Em cartaz a partir do dia 9 de março, na Kamara Kó Galeria, a exposição traz obras das séries QUASE MEMÓRIA (2000-2004),THERE’S NO PLACE LIKE 127.0.0.1 (2009-2010) e MAPAS DE RORSCHACH (2011), projetos que dialogam entre si pela pesquisa em torno da transposição de técnicas e suportes da fotografia enquanto possibilidade de investigação de temas ligados à memória, matérias e ficções narrativas.

Partindo do universo íntimo e afetivo, a série QUASE MEMÓRIA  (foto acima) marca o início do trabalho de Mutran com as manipulações de imagens preexistentes. As obras misturam chromos 35mm do seu acervo de família e sobras de trabalhos profissionais. Uma ponte entre tempos. “São justaposições de fotos que embaralham épocas e olhares diferentes, expondo a fragilidade da relação entre a matéria e a memória, seja física – corpo, papel, negativo e cópia -, seja virtual – lembranças, sensações, esquecimentos”, explica a artista. Três obras dessa série integram a coleção PIRELLI/MASP de 2004, e também premiadas no Arte Pará (2002) e no VIII Salão Unama de Pequenos Formatos (2002).

O trabalho THERE’S NO PLACE LIKE 127.0.0.1 (foto acima) aborda outro tipo de relação entre o corpo físico e o virtual, ao explorar os limites da apropriação da imagem privada de anônimos que se tornam públicas uma vez expostas na internet. “A frase que nomeia as imagens desta série representa muito da postura do internauta e sua relação com o lugar. É através do localhost (127.0.0.1), ou IP local dos computadores, que o internauta estabelece uma espécie de lugar utópico, como um intervalo no tempo e no espaço, em que realidade e ficção são projeções invertidas de uma mesma imagem”, explica. A série é composta de fragmentos visuais desses ambientes, em imagens coloridas de grande formato, feitas a partir de projeções para além dos monitores RGB, em superfícies de espelhos, paredes, portas, escadas e páginas de livros. Um novo recorte mostrará trabalhos que não foram exibidos na mostra “Pretérito Imperfeito de Territórios Móveis”, que esteve em cartaz no Espaço Cultural do Banco da Amazônia no mês de novembro de 2011.

Mais recentes, as fotografias da série MAPAS DE RORSCHACH (foto acima) são como cartografias elaboradas a partir de borrões em paredes, muros, pisos e tetos de Porto Alegre, onde mora a artista, que a remetem a lembranças de Belém, sua cidade natal. Inspirado nos estudos do suíço Hermann Rorschach, o trabalho faz uso do milenar hábito humano de projetar aspectos da própria personalidade na leitura de informações visuais aparentemente desconexas. “As imagens dessa série sugerem leituras de superfícies como se fossem mapas para lugares onde (re)encontro rostos que habitam entre essas duas cidades, ou apenas são fantasmas da minha imaginação”, diz Mutran, que expos parte da série no ARTE PARÁ – Ano Trinta, em outubro do ano passado. “São vestígios de trajetórias inconclusas que apontam para lugares utópicos, mentais. O rosto, percebido de longe e que se dilui na proximidade do detalhe, se estabelece como um território do afeto, onde a imaginação trafega livre de códigos”.

Essa exposição conta com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e ao Esporte Amador Tó Teixeira e Guilherme Paraense, com o patrocínio da BLB Eletrônica e apoio da Grand Cru Belém. Texto de apresentação de Mariano Klautau filho.

Texto: Gi Soster – Assessoria de Comunicação.

SERVIÇO

Abertura da Exposição “FILE 00”, de Flavya Mutran, na Kamara Kó Galeria (Travessa Frutuoso Guimarães , 611, Campina), dia 9 de março, às 19h30. Visitação de 10/03 a 28/04, de 15h às 19h (terças, quartas, quintas e sextas), e de 10h às 13h (sábados). A exposição é uma realização da Kamara Kó Galeria, com patrocínio da BLB Eletrônica, apoio institucional da Lei Tó Teixeira e Guilherme Paraense, FUMBEL e Prefeitura de Belém, e apoio da Grand Cru Belém.

Entrada franca. Informações e agendamentos: 91.32614809 | 91.32614240 kamarakogaleria@gmail.com | www.kamarakogaleria.com