BIOSHOT

Acima, a segunda montagem da série BIOSHOT na mostra Pretérito Imperfeito em Belém/PA. Foto: Flavya Mutran

Série BIOSHOT montada na galeria Xico Stockinger. Fotos © Flavya Mutran

O complexo conceito de Rostidade de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1994), orientou a experimentação prática que deu origem a série BIOSHOT. Em suas articulações teóricas, Deleuze e Guattari formularam a idéia de uma máquina abstrata de rostidade que seria responsável pela rostificação de todo o corpo, de suas funções e dos objetos que nos cercam. Funcionando como uma espécie de biopoder introjetado em diferentes camadas sociais, esse mecanismo mental que para os autores teria iniciado seu trabalho ao longo da história, seria hoje responsável pela tessitura das redes de conexões na sociedade.
É fato que o rosto percorre toda a história da arte e das representações, e este processo de rostificação que começa na família e logo se generaliza nas relações interpessoais, institucionais e no imaginário coletivo, inaugura novas fronteiras de subjetivações e significações. Deleuze e Guattari estabelecem ‘o muro branco e o buraco negro’ do rosto como abstrações opostas e complementares para construção e desconstrução dos nossos anseios individuais e coletivos. Diante desta teoria, questiono: que outro dispositivo se aproximaria mais da máquina abstrata de rostidade do que a fotografia? É através do muro branco de uma superfície sensível à imagem e do buraco negro de subjetivação do obturador que o homem relaciona-se figurativamente com o mundo e consigo mesmo. É através desse mecanismo proporcionado pela fotografia que o indivíduo opera suas construções de afeto, memória, autoimagem e imagem social.


Acima, imagens da série BIOSHOT © Flavya Mutran

A série BIOSHOT é feita de imagens digitais produzidas a partir do site yearsbookyourself.com, e tratam do complexo processo de produção social, política e ideológica que constitui um rosto. Os autorretratos da série são criações imperfeitas que simulam vidas paralelas, do eu e do outro, são misturas dos meus traços fisionômicos em matrizes prévias que combinam tipos físicos, sexos, raças, tempos e códigos diferentes.


Acima, o template do site yearsbookyourself.com, e à direita, as três variações do autorretrato que originaram as matrizes BIOSHOTs.

Usar meu autorretrato (mesmo parcialmente apagado) e vê-lo variar de tantas formas remeteu-me rapidamente às brincadeiras infantis frente ao espelho, os exercícios de automaquiagem da pré-adolescência e até mesmo as insatisfações pessoais da vida adulta: ‘ah, se meu cabelo fosse desse ou daquele jeito’, ‘se eu fosse negra, loura, magra, gorda… ’, ‘se eu fosse homem seria assim…‘. Fez-se de cada construção dos 52 perfis um exercício de conjugação verbal e temporal com muitas condicionantes poéticas. Uma brincadeira de construir imagens no presente, passado e no futuro. Seja pela lembrança, seja pelo apagamento, a série busca uma conexão entre o passado, o presente e o futuro de identidades reais e simuladas, mas todas atreladas a alguma imagem de ‘sujeito’ que trazemos conosco.

Porém, meu rosto não está de fato lá entre os 52 espelhos BIOSHOTs, pois eles são simulações, recombinações dos meus traços fisionômicos que derivam da desconstrução e reconstrução da própria identidade, do meu lugar em trânsito contínuo enquanto indivíduo e ser social. São vestígios descolados de um referente direto, são retratos de seres híbridos e sem nomes, presos num passado inexistente, que poderia ou deveria ter acontecido, não fosse apenas imaginação de um tempo que não chegará jamais acontecer… São documentos de um Pretérito Imperfeito

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s