EGOSHOT


Acima, fotografias da série EGOSHOTS (2010) em exposição na galeria Xico Stockinger, MAC-RS. Foto ©Flavya Mutran

No papel de narrador compulsivo, o internauta de hoje se assemelha ao escritor dos diários íntimos do período romântico, porém ao contrário dos manuscritos do século XVIII ou XIX, os fotoblogs são narrativas audiovisuais atualizadas com pouquíssimos ou nenhum texto que lhes oriente. As influências da arte – principalmente do cinema -, e dos meios de massa – fundamentalmente da TV -, na construção de autobiografias na web são marcantes, e há um tipo específico de autorrepresentação que circula em redes sociais que exemplificam bem isso: the daily videos. Tratam-se de animações feitas a partir de sequências fotográficas editadas quadro-a-quadro, em que cada frame é uma foto, geralmente feita na mesma posição, mesmo ângulo e poucas variações de luzes e cenários. Muitas vezes são necessários vários meses e até anos para que se consiga montar poucos minutos de exibição. Esses registros fotográficos animados em série chamam a atenção para a forma recorrente com que o internauta se coloca frente às câmeras. A maioria dos daily videos tem como ponto comum o posicionamento do rosto no centro do quadro – com foco no eixo dos olhos -, se estendendo por toda a área de alcance das mãos.


EGOSHOT (2010) ©Flavya Mutran

Os EGOSHOTs são multiexposições resultantes de daily videos, ou melhor, são espécies de resumos desses foto-vídeos. Como páginas de uma história inconclusa, a série é produzida a partir de longas tomadas condicionadas ao tempo de exibição de cada um desses relatos visuais. Cada EGOSHOT funciona como uma espécie de mapeamento desses testemunhos pessoais que tanto caracterizam a WEB 2.0, e que têm sido responsáveis por derrubar as antigas paredes que protegiam o espaço particular do escritor doméstico e seus relatos íntimos.

Os diários à moda antiga ‘(…) eram furtados à curiosidade alheia, guardados em gavetas e esconderijos secretos, muitas vezes protegidos por meio de chaves e senhas ocultas’*, mas a privacidade de ontem cedeu lugar à visibilidade voluntária e sem reservas dos fotoblogs de hoje. Senhas e chaves já não fecham portas e gavetas, e sim abrem os ambientes privados para o olhar alheio. As sequências de imagens se sobrepõem umas sobre as outras como finas camadas de luz que se repetem de tal forma, tantas vezes e com tal intensidade, que chegam a desenhar silhuetas indefinidas, como que em desaparecimento. É como se o excesso de luz interrompesse temporariamente a visão, borrando as formas do rosto.
Acredito que as fotos sobre os daily videos estão mais próximas, em essência, das narrativas manuscritas, do que propriamente dos objetos que lhes originaram (os fotoblogs). Se parecem com rabiscos e esboços incompletos, e não com retratos bem definidos próprios ao atributo indicial da fotografia, o que faz deles escrituras abertas e superpostas como se fossem páginas de um diário cuja grafia é ilegível, como espécies de garatujas. Mas também, vejo as fotografias da série que titulei como EGOSHOT, espécies de metáforas para a epidemia de cegueira branca** da ficção de José Saramago. Seus personagens ficam cegos não no vazio da escuridão, mas no clarão do excesso de luz e de imagens que se instala nos olhos, apagando o contorno de tudo que há para ser visto, tudo que há para ser lembrado.

Paradoxalmente, ao fotografar o excesso de exposição que o internauta se autoinflige, aproximo-os mais dos apagamentos de Saramago do que de inscrições. É na existência única e irrepetível da vivência diária que o internauta constrói sua narrativa pessoal como se fora uma obra de arte. A forma com que as reproduções desses relatos se apresentam na web sublima o fato desse ‘eu’ estar inacessível fisicamente de quem cultua essas exibições, como se fossem filmes.

Preocupada em encontrar uma maneira de guardar os caminhos para os rostos de Pretérito como se fossem mapas, encontrei nos QR-Codes a dupla ferramenta que orienta esse traslado. Meu interesse imediato está em conectar as imagens da série EGOSHOT ao endereço de cada daily video que os originou, e colocá-los disponíveis para que em algum momento, o interessado possa visitar esses territórios pelos quais passei.

Compartilhar estas narrativas pessoais e ligá-las aos EGOSHOTs soa como desdobramentos das etapas da pesquisa, assim como dos objetos referentes que geraram a série, de suas cópias e a difusão de linguagens em diferentes níveis com variados alcances e possibilidades interpretativas.


Acima, exemplos do funcionamento do sistema QR-CODE após leitura dos dados usando o aplicativo QR-Reader para smartphones com câmera. Ao ler o codigo, e conectado à uma rede, o programa direciona a imagem direto para o foto-vídeo matriz. Imagens © Flavya Mutran
Para ver o vídeo clique AQUI

Visitantes visualizam os videos através dos QR-CODEs abaixo das imagens EGOSHOT. Fotos: Flavya Mutran

Na exposição, abaixo de cada imagem da série, está um QR-CODE com as informações armazenadas de cada vídeo que originou minhas fotos. Para baixar um programa de QR-Code Reader, clique AQUI. Você pode instalar no seu smartphone e, ao visitar a exposição, ver in loco os vídeos que inspiraram as imagens da série.

Ao juntar os EGOSHOTs com os QR-Codes o que se pretende é expor parte dos métodos e questionamentos que fizeram parte do trabalho de laboratório, e estendê-los para além dos muros da academia e do espaço expositivo, propondo uma reflexão silenciosa sobre os meios de comunicação e exibição que hoje fazemos uso.
—–
* PAULA SIBILIA, O show do eu: A intimidade como espetáculo, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2008: p.76.
** SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s