OUTROS PRETÉRITOS

A imagem da cidade, principalmente a fotográfica, sempre me atraiu. O interesse pelos registros de outros fotógrafos também começou quase ao mesmo tempo em que iniciei na fotografia, e desde então, a imagem do lugar/território e seus diferentes pontos de vista vêm se constituindo como as minhas principais motivações e desafios pessoais relativos à Fotografia e Memória. Mais do que temas recorrentes, continuamente se renovam e instauram novos processos criativos com investigações práticas e proposições críticas sobre a Fotografia enquanto linguagem.

Em 1996, época em que eu concluía a graduação em Arquitetura e Urbanismo, procurei uma forma de unir diferentes possibilidades e conceitos de lugar a partir do ponto de vista urbano, e encontrei nas fotografias de Belém reunidas em Álbuns Governamentais, um valioso acervo. Imaginei que naquelas fotografias, principalmente as imagens do final do Séc. XIX e início do Séc. XX, estariam os vestígios da cidade idealizada no imaginário do paraense como a “Paris N’América” oitocentista perdida entre as lembranças de gerações passadas e nas sombras da cidade real, depredada e em parte desfigurada pelos equívocos urbanos e descasos sociais. Dos documentos oficiais pesquisados, foram relacionados diversos elementos constitutivos da fotografia enquanto fonte de informação documental, que apresentam imagens de Belém em diferentes períodos, desde os primeiros “Album Descriptivo Amazônico” de 1898 e de 1899 de Arthur Caccavoni, até o livro “Os caminhos de Belém, the Routes of Amazônia” de José de Paula Machado de 1996. De certa forma, não seria exagero dizer que as fotografias de Belém publicadas em álbuns institucionais também serviram de ferramentas para a criação de ficções. Aparentemente a vocação do belenense para a saudade encontra nesses registros fotográficos vestígios do imaginário coletivo corrente na região, pois a fotografia como fragmento da cena passada resulta de denotações e conotações que lhes são atribuídas após sua captação.

Na prática, a pesquisa “Cidade Especular” (UFPA, 1996) se transformou em um levantamento bibliográfico que, ao final, deixou muito mais questões do que respostas. Ainda assim pude perceber que os métodos de trabalho dos fotógrafos, a identificação e edição de imagens dessas publicações endossaram de forma arbitrária, diferentes discursos políticos e ideológicos, dirigidos a partir dos interesses de quem os manipulou. É inegável o sentido político-promocional dos álbuns pesquisados, e embora não se possa desvincular os aspectos políticos partidários dessas publicações é incontestável o caráter histórico das fotos ali reunidas, importantíssimas não só pela beleza e apuro técnico, mas também pelo talento e esforço incansável dos primeiros fotógrafos que chegaram à região no século XIX. Verdadeiras jóias do Patrimônio Artístico e Cultural do Pará e do Brasil.

Acima, reprodução capa de um dos livros pesquisados durante o TCC: à esquerda, capa de “O Pará”, de Montenegro é uma obra rara ricamente ilustrada com fotografias de Belém de Augusto Fidanza, de 1908.

Após o trabalho de graduação, mesmo fora da academia e já atuando como fotógrafa profissional, o interesse pela produção de outros fotógrafos continuou, e em 2004, procurei mais uma vez investigar a imagem da cidade de Belém, desta vez pelo ponto de vista do olhar amador, em fotografias de Álbuns de Família. Recheados de registros espontâneos no se refere ao tratamento estético e criativo, álbuns de família quase sempre são descomprometidos de interesses político-sociais, além de menos mascarados por propagandas ideológicas e códigos publicitários. Busquei principalmente imagens onde a cidade pudesse ser vista de maneira autêntica, ao contrário das imagens manipuladas e legendadas nos álbuns governamentais. Intitulada de “Pretérito Imperfeito de uma Cidade Especular”, a nova etapa para abordar o tema ROSTO/CIDADE foi então realizada de forma mais sistemática durante o curso de especialização em Semiótica e Artes Visuais do programa de pós-graduação no Instituto de Ciências e Artes da UFPA (ICA/UFPA) em 2004. A produção audiovisual amadora praticada em Belém e as influências dessa estética no meu processo criativo foram o foco do trabalho, que na monografia descreveu todas as etapas de criação de um audiovisual que reuniu as imagens pesquisadas.

Capa da monografia e do DVD “Pretérito imperfeito de uma cidade Especular”, da especialização em Semiótica e Artes Visuais realizada no ICA/UFPA. Link para o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=hRTelgtfkyo Fotos © Flavya Mutran

O vídeo tratou de uma cidade imaginária baseada em fotos e fatos reais. Paisagens, cenas e retratos de personagens reproduzem a memória afetiva de Belém em várias gerações, representadas em fragmentos de histórias inacabadas que fundem conceitos como recordar e esquecer. Duração aproximadamente 08 minutos, o audiovisual foi produzido e finalizado no mesmo ano da especialização com recursos do programa de Bolsas de Pesquisa em Artes, financiado pelo Governo do Estado do Pará por meio do Instituto de Artes do Pará – IAP.

Na procura pela fisionomia de Belém, de suas praças, fachadas históricas, ruas e orla encontrei coleções de fotos de interiores, rostos e animais de estimação. Raros foram os registros que tinham a cidade como tema e o pouco que foi localizado ou eram cartões postais ou instantâneos de passeios turísticos em que Belém servia apenas como pano de fundo para os protagonistas envolvidos nas cenas. Ao final da pesquisa, percebi que a imagem da cidade recortada pelo olhar amador, é o retrato que cada pessoa, fotografando ou não, faz de si mesmo e daqueles que lhes são caros. É como se imagens de pessoas e de seus objetos substituíssem o reflexo da cidade material. Porque o conceito de cidade muitas vezes se confunde com o conceito que temos de lugar. Lugar esse que mais parece ter o sentido de território interior, mental, objeto dinâmico percebido na invisibilidade do signo.

Acima e abaixo, páginas dos álbuns de família pesquisadas (Acervos da família de Flávio Nassar, Jaime Bibas e Armando Queiroz) .


Mais tarde, os limites geográficos já não mais condicionaram o objeto de pesquisa, uma vez que a rede de comunidades criada na era da informática quebrou a barreira física entre territórios em que a imagem e o conceito de cidade se localizam. Com as facilidades atuais das câmeras fotográficas digitais, podem-se produzir retratos de entes queridos, objetos ou lugares incessantemente, e os lançar sem reservas nos mais diferentes meios de circulação disponíveis. A prática gerou novos comportamentos e uma nova visualidade passa a ser produzida, embora pouco armazenada em papel como as relíquias históricas dos séculos passados. O conceito e matéria de que são feitos os álbuns de fotos mudou. As mais diferentes camadas econômicas puderam manifestar seus desejos e hábitos através da fotografia, e ao mesmo tempo expor suas intimidades sem reservas ou limites entre os espaços públicos e privados.

A partir desse enfoque, delimitou-se o tema da pesquisa de mestrado “Pretérito Imperfeito de Territórios Móveis” (IA/UFRGS, 2009/2010) que também não deixa de ser uma continuação dos estudos iniciados desde a graduação em Arquitetura e Urbanismo em seguida novamente abordado sob outro aspecto durante a especialização em Semiótica e Artes Visuais, ambas na UFPA, em Belém/PA.

Acredito que as imagens de pessoas e de seus objetos de certa forma substituem o reflexo da cidade, alargando o conceito de território para algo relacionado com lugares imateriais, mentais, objeto dinâmico percebido na invisibilidade do signo. É como se através de rostos, ou de lembranças interpessoais (boas ou más) que se estabelece a relação de pertencimento local e global. No caso dos Fotoblogs e das Redes Sociais, essa concepção de lugar se amplia ainda mais, pois os ambientes virtuais viram comunidades de trocas onde o rosto é a principal porta de acesso. Acesso para outros pretéritos e novos futuros.

O caráter de repetição de imagens autofigurativas remete a um fenômeno recorrente em álbuns de Redes Sociais: o eu no centro do quadro, como o disparador das novas relações socio-ambientais que caracterizam um dos principais diferenciais entre as imagens disponíveis em websites e os álbuns de família tradicionais em papel. Reproduções de autorretratos em rede, nos sites flickr.com, facebook.com e orkut.com

Flavya Mutran (Porto Alegre/RS, 11 de abril de 2011)

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